sábado, junho 01, 2002

Desabafos jornalísticos

Há dias em que dá um grande gozo ser jornalista. Outros em que sentimo-nos frustados por ter, do outro lado da linha, entidades que não compreendem que a nossa missão é informar e que todos os silêncios, mesmo que sejam “coerentes” segundo a opinião da empresa, não são correctos.
Há jornalistas e jornalistas. Bons e maus. Alguns éticos, outros nem por isso. O dia-a-dia do contacto com as fontes permite, mais do que um texto ou outro, que essa destrinça seja deslindada, de modo a que quer a empresa quer a jornalista saiba aquilo que podem contar... Aceito que as empresas, “usem” o silêncio.

Dada a lógica comercial de algumas das medidas, é natural que aquilo que se “pode” saber seja diferente daquilo que o jornalista está interessado em saber. Também aceito que certos colegas de profissão não sejam o mais correctos com certas empresas. Aliás, as fontes deveriam saber - ou as agências de comunicação deviam fazer o seu papel de consultoras - com quem estão a lidar e a melhor forma para isso...

De qualquer forma, aquilo que eu não entendo é a lógica de certas empresas que TUDO é segredo, que nada pode ser dito. E depois não aceitam os péssimos resultados das suas agências de comunicação. Que tentam, que tentam mas não conseguem...

O curioso é que com a Internet, basta um pouco de intuição, algum conhecimento das ferramentas ao dispôr e tempo para que um jornalista saiba coisas que o próprio empresário, ministro ou muitos outros interlocutores não sabem. E isso é algo de bom porque tira "o sagrado" que, no antigamente - na era antes da Internet - todos faziam de certas referências.

Nos tempos que correm, acho incrivel que certos jornalistas ainda se sujeitam a acreditar em terceiras fontes, quando está aos eu dispôr os verdadeiros objectos de análise jornalística. Um discurso de Bill Gates é tão fácil de encontrar como os resultados de uma empresa cotada ou uma explicação mais ou menos sumária de um determinado processo científico ou tecnológico.

Bem, basta de falar de jornalistas... O ministro José Luis Arnaut criticou publicamente uma parte do trabalho socialista na área da sociedade de informação, lembrando que os sites têm falta de estruturas transaccionais, e que é necessária uma mudança. Todos estamos de acordo que é preciso muito mais, como ainda há dias a Accenture confirmou...

Sugiro, é claro, ao ministro Arnaut que comece a mudar tudo. Ou então a reabrir alguns sites que estão em remodelação desde as eleições... Algo que não pode acontecer em democracia é a tentativa de guardar para si os números menos interessante e divulgar os outros. Os jornalistas que têm a Internet como a sua ferramenta e a verdade como princípio básico não perdoam.

sexta-feira, maio 31, 2002

Dinheiros

Esta semana estive indeciso sobre qual o assunto a escrever. Como esta indecisão mantece-se até à meia-noite de quarta-feira, decidi escrevinhar sobre três assuntos, que demonstram um pouco da nossa actual vidinha tecnológica lusitana...

Primeiro, a área dos telemóveis. Portugal é uma caixa de “ensaio” de tecnologias, produtos e serviços. Aquilo que muitas das empresas que trabalham para este sector já o diziam há muito tempo, mostrando os nossos inventos e aplicações práticas, também o cidadão comum o pode dizer. Somos dos primeiros países europeus com o serviço de mensagens escritas multimédia, com empresas aguerridas no mercado e a darem luta - umas vezes por dias, outras vezes por horas. Onde uma diz “experiência”, a outra reclama “lançamento comercial” e assim sucessivamente. o que é bom sinal para o consumidor. Veremos como é que o quatro operador se irá portar... Mas que tem dificuldades próprias de quem terá que “suar” muito, isso não há a mínima dúvida...

O serviço MMS tem tudo para ser um sucesso. É atraente, viciante e cativa a nova geração, que se inventou um código muito próprio nas mensagens escritas irá aumentar as suas possibilidades agora com o auxílio do multimédia. Imagino o dia em que haverá concursos diários para sabermos qual a melhor imagem multimédia e não faltará muito para termos muitas anedotas cómicas enviadas dessas formas, com sons a condizer...

Segundo, uma pequena notícia de um jornal diário demonstra aquilo que a burocracia não consegue emperrar - a nossa capacidade empreendedora, os nossos empresários com garra e, curiosamente, a demonstração que o sector das TIC é forte, pois resiste a candidaturas que “estão completamente bloqueadas”. Existir o caso de um SECTOR - sim, um sector como o das tecnologias de informação que está sem receber dinheiros do Plano Operacional de Economia, o conhecido POE, porque, simplemente, não há capacidade técnica para avaliar os projectos é muito ridiculo... Se fosse outro sector, já os comunicados seriam inúmeros...

Terceiro, o projecto Star.pt também demonstra que há verdadeiros empresários Internet. Pedro Reis e Sandra Cóias souberam apostar num produto correcto, com uma lógica igualmente eficaz e o seu Star.pt é um marco na nossa Internet que, tal como o país, não é mais do que meia dúzia de projectos com grande qualidade mas sem dinheiro e com muitos outros que não precisavem de ter dinheiro...

sexta-feira, maio 17, 2002

Desilusão

No final da semana passada levantei-me mais cedo da cama para ir, mais uma vez, à Exponor. Dado que sou de Aveiro, já não é a primeira vez que vou aquele espaço, do qual tenho boas recordações. Desta vez ia à Portugal Media, este ano com mais um nome a criar grandes expectativas - o da Fenasoft.

Apelidada assim de Portugal Media/Fenasoft Europa, a feira prometia, tendo também um congreso - ou melhor dois, um técnico e outro para os gestores - paralelo.
Aliás, eu tinha óptimas impressões da Portugal Media, quando lá tinha ido pela primeira vez, em 2000, numa altura em que a feira era um grande espaço onde se conjugava as tecnologias de informação, a área da publicidade e também tudo aquilo que lhe dava o nome: os media.

Bem, aquilo que posso dizer é que foi uma grande desilusão. Daquelas que dá vontade de escrver em letra grande, não fosse estar convencionado pelas novas tecnologias que isso significa GRITAR...

Gritar de raiva e de descrédito. Claro que vou dar mais uma oportunidade à Portugal Media/Fenasoft europa. Porque continuo a achar que a parceria com a Fenasoft, se não for só de nome, servirá para o futuro.

No entanto, e para já, Portugal só tem uma feira de jeito. Uma feira chamada Inforpor, capitaneada por uma jovem e dinâmica Alexandra Vasconcellos e que apenas precisa lembrar às empresas aquilo que se faz lá fora: uma feira é para apresentar NOVIDADES, uma feira é para ter press-releases produzidos com tempo e qualiadade e ter tempo para todos, jornalistas e profissionais.

Se conseguir isso, merece os parabéns e o crédito maior de quem continua a mostrar aquilo que é uma feira. E a pergunta, que outros meus colegas já fizeram mantém-se. Terá Portugal espaço para mais uma feira?

sexta-feira, maio 10, 2002

Mea culpa, sr. Ministro

Numa conversa circunstancial, das muitas que um jornalista tem ao longo do dia e nas quais vai apanhando pequenos fragmentos de interesse que irá reconstruir quanto tiver tempo, fiquei a saber que as palavras eleitorais de Durão Barroso queriam dizer - se é que ele queria mesmo dizer aquilo...

Por outras palavras, a estrutura e a política do Governo de Convergência Democrática para a área da sociedade de informação irão estar concentradas no “inner circle” de Durão Barroso. O primeiro-ministro irá, ele próprio, conduzir a gestão política deixando a componente operacional ao ministro-adjunto, José Luís Arnaut. Assim, discretamente, cumpre uma promessa eleitoral - não com as pessoas que se supunha mas enfim - e mantém uma estrutura de Governo reduzida, algo que prometeu quando viu quão depauperadas estavam as finanças públicas.

Claro que ainda há perguntas no ar. Quais as estruturas que irão ficar, aquelas que eram fundamentais ao desenvolvimento desta área ou as que irão estar divididas em tarefas decorrentes de duas ou mais tutelas. A gestão do POSI fica com José Luís Arnaut. E o Observatório da Ciência e Tecnologia, cujo trabalho na área dos dados sobre informação foi fundamental, fica no MCES? E a CISI - Comissão Interministerial para a Sociedade de Informação? E todos os projectos integrados como aqueles que estão enunciados no programa de Governo, nomeadamente as redes avançadas para a área da educação e ciência? Mais importante, como é que ficará a Agência de Inovação, que estava a trabalhar na órbita exclusiva do ex-MCT?

Aquilo que é certo é que a iniciativa legislativa na área será da responsabilidade directa do gabinete do primeiro-ministro. O advogado especialista em propriedade industrial será a “alma mater” da politica de sociedade de informação em Portugal e todos estão à espera de saber o que ele pretende para o país.

Para o fim que deixar outro tópico de conversa no ar. As novas tecnologias, a sua convergência e as necessidades que podem ser satisfeitas através delas podem ser motivo de gozo, incompreensão ou descrença. O cidadão informado deve batalhar pelas suas ideias dado que as novas tecnologias poderão dar muito mais vitalidade e justiça aos seus propósitos. Deixo-vos um exemplo: em Aveiro, um grupo de cidadãos obrigou a Câmara Municipal a discutir um assunto polémico - a destruição de uma casa classificada - em Assembleia Municipal. Sabem como? Construindo uma simples página Internet com um sistema de abaixo-assinado e pegando nas assinaturas (claro que convém ter um legalista ao lado) obrigou a "petição" a ser discutida. Se serve para alguma coisa? Serviu para que quinhentas pessoas com a mesma ideia ajudassem um ideal com um clicar de dedo. Pensem nisso...