sexta-feira, maio 17, 2002

Desilusão

No final da semana passada levantei-me mais cedo da cama para ir, mais uma vez, à Exponor. Dado que sou de Aveiro, já não é a primeira vez que vou aquele espaço, do qual tenho boas recordações. Desta vez ia à Portugal Media, este ano com mais um nome a criar grandes expectativas - o da Fenasoft.

Apelidada assim de Portugal Media/Fenasoft Europa, a feira prometia, tendo também um congreso - ou melhor dois, um técnico e outro para os gestores - paralelo.
Aliás, eu tinha óptimas impressões da Portugal Media, quando lá tinha ido pela primeira vez, em 2000, numa altura em que a feira era um grande espaço onde se conjugava as tecnologias de informação, a área da publicidade e também tudo aquilo que lhe dava o nome: os media.

Bem, aquilo que posso dizer é que foi uma grande desilusão. Daquelas que dá vontade de escrver em letra grande, não fosse estar convencionado pelas novas tecnologias que isso significa GRITAR...

Gritar de raiva e de descrédito. Claro que vou dar mais uma oportunidade à Portugal Media/Fenasoft europa. Porque continuo a achar que a parceria com a Fenasoft, se não for só de nome, servirá para o futuro.

No entanto, e para já, Portugal só tem uma feira de jeito. Uma feira chamada Inforpor, capitaneada por uma jovem e dinâmica Alexandra Vasconcellos e que apenas precisa lembrar às empresas aquilo que se faz lá fora: uma feira é para apresentar NOVIDADES, uma feira é para ter press-releases produzidos com tempo e qualiadade e ter tempo para todos, jornalistas e profissionais.

Se conseguir isso, merece os parabéns e o crédito maior de quem continua a mostrar aquilo que é uma feira. E a pergunta, que outros meus colegas já fizeram mantém-se. Terá Portugal espaço para mais uma feira?

sexta-feira, maio 10, 2002

Mea culpa, sr. Ministro

Numa conversa circunstancial, das muitas que um jornalista tem ao longo do dia e nas quais vai apanhando pequenos fragmentos de interesse que irá reconstruir quanto tiver tempo, fiquei a saber que as palavras eleitorais de Durão Barroso queriam dizer - se é que ele queria mesmo dizer aquilo...

Por outras palavras, a estrutura e a política do Governo de Convergência Democrática para a área da sociedade de informação irão estar concentradas no “inner circle” de Durão Barroso. O primeiro-ministro irá, ele próprio, conduzir a gestão política deixando a componente operacional ao ministro-adjunto, José Luís Arnaut. Assim, discretamente, cumpre uma promessa eleitoral - não com as pessoas que se supunha mas enfim - e mantém uma estrutura de Governo reduzida, algo que prometeu quando viu quão depauperadas estavam as finanças públicas.

Claro que ainda há perguntas no ar. Quais as estruturas que irão ficar, aquelas que eram fundamentais ao desenvolvimento desta área ou as que irão estar divididas em tarefas decorrentes de duas ou mais tutelas. A gestão do POSI fica com José Luís Arnaut. E o Observatório da Ciência e Tecnologia, cujo trabalho na área dos dados sobre informação foi fundamental, fica no MCES? E a CISI - Comissão Interministerial para a Sociedade de Informação? E todos os projectos integrados como aqueles que estão enunciados no programa de Governo, nomeadamente as redes avançadas para a área da educação e ciência? Mais importante, como é que ficará a Agência de Inovação, que estava a trabalhar na órbita exclusiva do ex-MCT?

Aquilo que é certo é que a iniciativa legislativa na área será da responsabilidade directa do gabinete do primeiro-ministro. O advogado especialista em propriedade industrial será a “alma mater” da politica de sociedade de informação em Portugal e todos estão à espera de saber o que ele pretende para o país.

Para o fim que deixar outro tópico de conversa no ar. As novas tecnologias, a sua convergência e as necessidades que podem ser satisfeitas através delas podem ser motivo de gozo, incompreensão ou descrença. O cidadão informado deve batalhar pelas suas ideias dado que as novas tecnologias poderão dar muito mais vitalidade e justiça aos seus propósitos. Deixo-vos um exemplo: em Aveiro, um grupo de cidadãos obrigou a Câmara Municipal a discutir um assunto polémico - a destruição de uma casa classificada - em Assembleia Municipal. Sabem como? Construindo uma simples página Internet com um sistema de abaixo-assinado e pegando nas assinaturas (claro que convém ter um legalista ao lado) obrigou a "petição" a ser discutida. Se serve para alguma coisa? Serviu para que quinhentas pessoas com a mesma ideia ajudassem um ideal com um clicar de dedo. Pensem nisso...

sexta-feira, abril 26, 2002

Multimédia com necessidades

O mercado português do “multimédia” offline acordou esta semana de uma letargia que já se prolongava há meses. Bem, o mercado multimédia português que temos, é claro. Num mercado onde poucos apostam - o que só realça a actividade contínua da Porto Editora e do seu centro multimédia - e onde o CD-ROM para suporte de conteúdos interactivos já não se mostra actractivo para um consumidor que ainda não tem acesso em banda larga à Internet e que não está interessado em gastar alguns cêntimos em subscrições...

Um dos dois estudos que sairam esta semana sobre multimédia deixou algumas interrogações - ou ele foi mal dirigido ou os portugueses só consomem jogos no que concerne ao multimédia. Eu até acredito na segunda hipótese porque não acredito que quando se pergunta sobre uma marca de multimédia em portugal apareça em terceito lugar uma que já se extinguiu há mais de três anos...

As grandes casas do multimédia português são editoras ligadas ao segmento educativo. Nunca houve em Portugal um apoio forte e um incentivo - porque acho que poderiam existir capacidades - no maior mercado que existe, em termos multimédias: os jogos. Aqui, como em outros sectores, a pequenez do país é a resposta mais ouvida na profusão de justificações para o pouco investimento. A exemplo do cinema, as nossas actividades princípais são a legendagem, a adaptação para português e a distribuição...

Será que poderá ser de outro modo? Será que o multimédia português - online e offline - tem, efectivamente, futuro? Não sei. não quero transparecer algum pessimismo global mas as notícias mais recentes não me deixam pensar em futuros risonhos. Quando se fecham projectos com estabilidade e nome... Quando não temos determinados serviços e produtos numa língua que é a sexta mais falada do mundo...

Curiosamente a semana passada também ficou marcada pela entrega de prémios referentes ao Prémio Nacional Multimédia. Num jantar muito ao estilo "Hollywood", notou-se que a qualidade - on e off line - é algo que está intrínseco em termos de criatividade, inovação e opções técnicas/programáticas. Será que são apenas os meios económicos, o mercado, que nos condiciona?

Nos últimos meses foram realizadas, em CD-ROM, um conjunto de obras com grande valor para a área da literatura e multimédia. O futuro poderá ser interessante para coleccionadores, historiadores e outros grupos? E trabalhos para o cidadão comum? Para aquele que pretende apenas saber algo mais? Ou somos assim tão poucos?

Porque é que o mercado multimédia tem de ser à semelhança do sector do audiovisual e não igual ao da telefonia móvel? Gostava de desafiar os agentes do mercado a entrarem nesta grande debate.

jmo@esoterica.pt
João Manuel Oliveira é editor do suplemento de novas tecnologias da "A Capital"

sexta-feira, abril 19, 2002

Expectativas mínimas

Foi com todo o gosto e alguma alegria que acedi ao convite da minha colega Lídia Bulcão para escrever para o "Tribuna das Ilhas" sobre novas tecnologias. Sinto que a sociedade da informação e do conhecimento é a maior ajuda que os cidadãos dos Açores - e outros locais afectados pela insularidade - podem ter de modo a mitigar os problemas derivados das condicionantes espaciais. Se há sítio onde a administração pública electrónica é algo de primordial é em locais como os açores, onde perder tempo numa repartição pública ou fazer algum dos actos obrigatórios poderá implicar a perda de dias. Sempre que queiram, usem o meu e-mail para sugestões e opiniões sob a temática das novas tecnologias, Internet e "e-government".

Numa conversa de café, e quem não as tem(!) lembrei-me que, enquanto discutimos as necessidades para a área da sociedade de informação e do conhecimento, esquecemo-nos por vezes - e, infelizmente, a Administração Pública também - que o fundamental da tecnologia não são os “bytes” mas aquilo que poderemos fazer com ela. Uma verdade de La Palisse que parece contradizer a realidade. é que a mesma tecnologia que é usada para saber quem é o concorrente mais apreciado nos “Big Brothers” ainda não serviu - nem ouvi nenhum autarca lembrar-se dessa possibilidade - para auscultar os cidadãos deste país ou de qualquer concelho sobre as opções de um problema local, ou para informar sobre determinada solução da administração pública. Meus senhores, usem a vossa imaginação... e a tecnologia!

Em relação aos novos ministros e secretários de Estado, lembrei-me também das circunstâncias iniciais, na campanha eleitoral do PSD. Tudo começou num hotel de Lisboa. Cerca de trezentas personalidades dos vários quadrantes do sector das tecnologias de informação, inovação e ciência estavam presentes num seminário organizado pelo PSD. Desde os desiludidos ou ressabiados do “marianismo” aos que advogam uma maior participação das empresas privadas na economia digital, todos parecem ter gostado do discurso de Durão Barroso. Criteriosamente, a política desenhada no seu discurso parecia satisfazer o melhor de dois mundos: continuar o (muito) que de bom foi feito por Mariano Gago e aumentar e melhorar a política tecnológica. Para isso, Durão Barroso definia claramente a sua estratégia e integrava a sociedade de informação no seu domínio político.

Desde esse dia até hoje, passou pouco mais de um mês e meio. Conhecido o Ministro da Ciência e Ensino Superior - até a tecnologia caiu - as dúvidas instalam-se entre os actores do sector. Claramente, venceu a lógica do ensino superior e apenas um secretário de Estado, que não deslumbra nenhum dos "actores" deste sector...

Continuar o que de bom se fez na Ciência e Tecnologia e melhorar a política tecnológica é essencial. Saber se um ministro que já não tem desculpa para não conhecer o “@” digital mas que parece estar mais preocupado com os gastos do Ensino Superior poderá conseguir isso e dar um novo impulso à Sociedade de Informação, é outra coisa. O mais estranho é colocar de lado, de forma clara, quem optou por ajudar e escolher baseado numa lógica de amizade. Quem se interessa pela Sociedade de Informação vai continuar na expectativa. Sabendo que não quer perder aquilo que conquistou...

jmo@esoterica.pt
João Manuel Oliveira é editor do suplemento de novas tecnologias da "A Capital"