sexta-feira, abril 19, 2002

Expectativas mínimas

Foi com todo o gosto e alguma alegria que acedi ao convite da minha colega Lídia Bulcão para escrever para o "Tribuna das Ilhas" sobre novas tecnologias. Sinto que a sociedade da informação e do conhecimento é a maior ajuda que os cidadãos dos Açores - e outros locais afectados pela insularidade - podem ter de modo a mitigar os problemas derivados das condicionantes espaciais. Se há sítio onde a administração pública electrónica é algo de primordial é em locais como os açores, onde perder tempo numa repartição pública ou fazer algum dos actos obrigatórios poderá implicar a perda de dias. Sempre que queiram, usem o meu e-mail para sugestões e opiniões sob a temática das novas tecnologias, Internet e "e-government".

Numa conversa de café, e quem não as tem(!) lembrei-me que, enquanto discutimos as necessidades para a área da sociedade de informação e do conhecimento, esquecemo-nos por vezes - e, infelizmente, a Administração Pública também - que o fundamental da tecnologia não são os “bytes” mas aquilo que poderemos fazer com ela. Uma verdade de La Palisse que parece contradizer a realidade. é que a mesma tecnologia que é usada para saber quem é o concorrente mais apreciado nos “Big Brothers” ainda não serviu - nem ouvi nenhum autarca lembrar-se dessa possibilidade - para auscultar os cidadãos deste país ou de qualquer concelho sobre as opções de um problema local, ou para informar sobre determinada solução da administração pública. Meus senhores, usem a vossa imaginação... e a tecnologia!

Em relação aos novos ministros e secretários de Estado, lembrei-me também das circunstâncias iniciais, na campanha eleitoral do PSD. Tudo começou num hotel de Lisboa. Cerca de trezentas personalidades dos vários quadrantes do sector das tecnologias de informação, inovação e ciência estavam presentes num seminário organizado pelo PSD. Desde os desiludidos ou ressabiados do “marianismo” aos que advogam uma maior participação das empresas privadas na economia digital, todos parecem ter gostado do discurso de Durão Barroso. Criteriosamente, a política desenhada no seu discurso parecia satisfazer o melhor de dois mundos: continuar o (muito) que de bom foi feito por Mariano Gago e aumentar e melhorar a política tecnológica. Para isso, Durão Barroso definia claramente a sua estratégia e integrava a sociedade de informação no seu domínio político.

Desde esse dia até hoje, passou pouco mais de um mês e meio. Conhecido o Ministro da Ciência e Ensino Superior - até a tecnologia caiu - as dúvidas instalam-se entre os actores do sector. Claramente, venceu a lógica do ensino superior e apenas um secretário de Estado, que não deslumbra nenhum dos "actores" deste sector...

Continuar o que de bom se fez na Ciência e Tecnologia e melhorar a política tecnológica é essencial. Saber se um ministro que já não tem desculpa para não conhecer o “@” digital mas que parece estar mais preocupado com os gastos do Ensino Superior poderá conseguir isso e dar um novo impulso à Sociedade de Informação, é outra coisa. O mais estranho é colocar de lado, de forma clara, quem optou por ajudar e escolher baseado numa lógica de amizade. Quem se interessa pela Sociedade de Informação vai continuar na expectativa. Sabendo que não quer perder aquilo que conquistou...

jmo@esoterica.pt
João Manuel Oliveira é editor do suplemento de novas tecnologias da "A Capital"